O SIGNIFICADO DO DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL

Anualmente, a 10 de Outubro, por recomendação da Organização Mundial da Saúde promovem-se um pouco por todo o mundo iniciativas diversas para assinalar o Dia Mundial da Saúde Mental. Qual o significado dessa recomendação e dessas iniciativas? Apesar do reconhecido aumento das doenças mentais, designadamente das perturbações do espectro depressivo, aumento que se verifica a nível mundial, e apesar de alguns países incluírem a saúde mental como uma das áreas a merecer atenção prioritária, como é o caso de Portugal, o certo é que as questões relacionadas com a saúde mental continuam a não ter a visibilidade social que merecem.

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E merecem ser mais conhecidas do grande público quer pelo número de pessoas afectadas, pelo sofrimento humano e impacto social que provocam, quer pela relevância do desafio imenso que colocam à nossa capacidade de investigação e de desenvolvimento científico e cultural. Com efeito, muitas das questões respeitantes às doenças ditas mentais permanecem ainda escondidas, longe dos holofotes da nossa sociedade mediática. Diga-se sem pejo que os mass-media raramente se lembram delas ou só delas falam pelas piores razões, alimentando o alarmismo e reforçando o estigma que envolve as pessoas com doença mental. Ora uma das formas mais eficazes de combater o estigma é difundir os conhecimentos científicos sobre a realidade das doenças mentais; é noticiar os resultados das investigações acerca dos diversos e múltiplos factores e condições de vulnerabilidade favoráveis à emergência das doenças; é divulgar a existência de novas práticas terapêuticas integradas que permitem, para além da estabilização dos sintomas mais graves, a recuperação das pessoas doentes e a sua inclusão social.


Mas há um efeito do estigma social que importa identificar e combater com tenacidade. Trata-se do auto estigma das pessoas doentes e do "pacto de silêncio" ou do " retirada social" das famílias. É verdade que as famílias não estão preparadas para conviver com a existência de um familiar seu com doença mental. A dificuldade em aceitar a realidade leva-as a procurar amenizar o diagnóstico, a dar-lhe nomes mais leves ou socialmente mais aceitáveis ou simplesmente a evitar ou a esconder.


Abre-se aqui o vasto campo da intervenção psico-educativa dos familiares. É preciso informar e orientar as famílias, é indispensável ajudá-las a superar medos e sentimentos de culpa ou de vergonha, é necessário criar serviços especializados destinados a sensibilizar as famílias e a prepará-las para lidar com as dificuldades do doente. E sobretudo é preciso educá-las a actuar como cuidadores informais e colaboradores dos profissionais de saúde que se ocupam do processo de reabilitação e da indispensável autonomia do familiar doente. Existe já suficiente evidência científica para fundamentar a eficácia das intervenções psico-educativas junto das pessoas doentes e também dos seus familiares próximos. E os custos da criação destes serviços nem sequer são elevados, permitindo, pelo contrário, economizar em recaídas, hospitalizações e internamentos repetidos. Trata-se, de resto, de uma medida que se encontra consignada no "Programa Nacional para a Saúde Mental – Orientações programáticas 2007-2016". As pessoas doentes e as suas famílias há muito que precisam destes serviços. É verdadeiramente urgente suscitar uma rede de vontades convergentes para a sua concretização. As famílias querem ser um elo dessa rede. Trata-se afinal da concretização de um direito das pessoas doentes e das famílias e de um dever, mais do que um compromisso, das autoridades responsáveis pelo Sistema Nacional de Saúde. Afirmar publicamente este direito e este dever constitui um contributo para assinalar e reforçar o significado do Dia Mundial da Saúde Mental.


Manuel Viegas Abreu
Professor Jubilado da UC
Presidente da Associação